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O que causa skin picking ou transtorno de escoriação?

3 de fev.
4 min de leitura

Atualizado: 13 de abr.

Mulher com skin picking ou transtorno de escoriação


O skin picking, chamado clinicamente de transtorno de escoriação ou dermatilomania é reconhecido pelo DSM-5 como transtorno distinto dentro do espectro obsessivo-compulsivo.


A condição envolve fatores genéticos, neurobiológicos e psicológicos combinados.


O pico de início dos sintomas ocorre por volta dos 13 anos, com mais de 90% dos casos com início antes dos 20 anos. Apesar disso, 87% das pessoas nunca receberam tratamento.



O que acontece no cérebro de quem tem dermatilomania?


Estudos de neuroimagem revelam alterações consistentes em regiões ligadas à inibição sensoriomotora, formação de hábitos e interação perceptivo-afetiva.


O córtex orbitofrontal, a ínsula e o cerebelo apresentam volumes menores, enquanto o nucleus accumbens — associado a déficits de controle inibitório — aparece aumentado.


Estudos de imagem por Ressonância Magnética Funcional mostram hipoatividade no córtex cingulado anterior, estriado dorsal e áreas frontais mediais direitas, regiões essenciais para a formação e supressão de movimentos motores.


Em outras palavras, o cérebro de quem tem o transtorno de escoriação tem dificuldade em "frear" o comportamento repetitivo.



Disfunção glutamatérgica


Uma pesquisa recente de 2024 identificou disfunção glutamatérgica sistêmica em pessoas diagnosticadas.


O glutamato é o principal neurotransmissor excitatório do cérebro, e seu desequilíbrio é também encontrado no TOC.


Isso ajuda a explicar por que a N-acetilcisteína (que regula o glutamato) é um dos tratamentos mais promissores, mas não é o único.



Gatilhos


Os gatilhos mais frequentes reportados por pacientes foram estresse, emoções desreguladas, momentos de foco intenso, e a "sensação" (textura) irregular da pele causando desconforto acima do tolerável.


As regiões mais comumente afetadas foram o rosto, seguido de braços e outras partes do corpo.



Por que o picking alivia sensações de ansiedade, angústia ou estresse momentaneamente?


Para a maioria das pessoas com a condição, estados afetivos negativos como ansiedade, tensão ou tédio são intensos imediatamente antes do picking, e diminuem significativamente depois.


É um ciclo de regulação emocional disfuncional, já que o comportamento "funciona" no curto prazo, o que o reforça. Alívio e gratificação aumentam durante o picking, enquanto culpa aumenta depois.



O público mais vulnerável


Adultos apresentam níveis mais altos de impulsividade, baixa tolerância ao sofrimento e dificuldade em usar estratégias adaptativas de regulação emocional em comparação com controles saudáveis.


Outras comorbidades são comuns: tricotilomania, depressão, transtorno de ansiedade generalizada, TDAH e TOC aparecem com frequência nos diagnósticos associados.



Trauma na infância


É possível, e bem comum, que o primeiro episódio de skin picking esteja associado a histórico de algum tipo de trauma na infância e problemas pessoais.


Pessoas com comportamentos autolesivos mais graves têm maior probabilidade de terem vivido situações de violência doméstica e abuso infantil.


Mesmo sem grandes episódios marcantes, o "trauma" pode ter surgido de uma experiência simples do desenvolvimento pessoal.


Quando jovens, nossos sistemas ainda estão sendo construídos e processando o mundo para criar memórias base, nosso senso de identidade e julgamento sobre experiências.


Um período comum de provas na escola ou um leve constrangimento em público geralmente são situações que não causam danos graves à vida, mas por conta da intensidade das emoções sentidas no momento, podem ser "arquivadas" na memória como traumáticas.



O que a ciência sabe sobre transtorno de escoriação hoje, em 2026?


Apesar do impacto significativo na qualidade de vida, ainda há falta de compreensão sobre os fatores envolvidos na precipitação ou progressão do transtorno.


Os estudos de neuroimagem são recentes e com amostras ainda pequenas.


A maioria das pesquisas sobre fenomenologia foi feita por questionários online, não por avaliações presenciais validadas.


Os resultados sobre a relação entre desregulação emocional e gravidade geral dos sintomas são mistos, ou seja, a intensidade emocional explica parte do quadro, mas não todo ele.


Pesquisas futuras estão sendo direcionadas para marcadores precoces de detecção e prevenção, especialmente em crianças e adolescentes, dado que a maioria dos casos começa na puberdade.


O tratamento atual tem como base a terapia cognitivo-comportamental (padrão-ouro para várias condições) e diferentes formas de regulação emocional mais saudáveis.



A nutrição faz parte do tratamento da dermatilomania?


Nutricionistas que recebem em consultório pacientes relatando episódios de escoriação na pele, tendem a ouvir dos próprios pacientes as hipóteses de relação com certos hábitos, inclusive alimentares.


Há alguns registros científicos que demonstram a influência indireta do comportamento alimentar no quadro, principalmente em momentos de crise e especialmente via suplementação, microbioma (eixo intestino-cérebro) ou comportamentos impulsivos.


Mas a ciência ainda não tem estudos controlados suficientes para transformar isso em recomendação clínica estabelecida.


Digamos que é uma área promissora e interessante de ser explorada, mas que ainda não tem interesse suficiente por parte de um grande volume de pesquisadores para entender a condição a fundo.


Na falta de evidências registradas na literatura científica, precisamos lidar com a realidade hoje, agora.


O nutricionista é o profissional especializado em entender e saber lidar com todos os aspectos do ato de comer: da percepção à experiência.


"Se o controle inibitório tem relação com o quão "frágil" a pessoa fica, logo, mais difícil se regular, a rotina alimentar desajustada pode sim causar impacto, porque possui várias 'janelas de gatilho' para o hábito acontecer com maior recorrência". — Aline Angela, Nutricionista Clínica Comportamental

Com glicemia estável, hormônios regulados, saúde intestinal, perspectivas mais equilibradas sobre o autocuidado, entre outros ajustes finos na rotina em conjunto com psicoterapia e psiquiatria, a escoriação na pele tende a ser menos frequente.




Aline Angela Carvalho de Araujo

Nutricionista Clínica Comportamental

CRN-8 18431

Atendimento online para qualquer lugar do mundo




Fontes consultadas


Psychodermatology of skin picking: A comprehensive review — Torales et al., 2020


Excoriation disorder is characterized by systemic glutamatergic dysfunction — Bordeaux et al., 2024


Neural markers in excoriation disorder: Systematic review — Hodgdon et al., 2025


Emotion regulation in pathological skin picking — Snorrason et al., 2010


Exploring skin picking disorder: aetiology, treatment, and future directions — Alfahaad et al., 2024


Characteristics of 262 adults with skin picking disorder — Grant et al., 2022


Emotional Dysregulation in Skin Picking Disorder — Chesivoir et al., 2023


 
 
 

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