Mounjaro muda o paladar e o gosto da comida? O que fazer?
- 5 de mai.
- 5 min de leitura

O tratamento com Mounjaro, Ozempic e WeGovy interfere nos hábitos, escolhas e preferências alimentares. Uma mistura de mudança perceptiva do sabor + mudança de preferência + redução do prazer/recompensa ao comer. Os próprios pacientes nem sempre conseguem separar essas experiências.
A mudança na percepção de sabor da comida pode ser temporária, ou definitiva. Em alguns casos, no fim do tratamento o sabor volta a ser sentido como era antes da medicação, e em outros há uma reeducação do paladar alinhada a mudança de estilo de vida.
Este artigo explica os efeitos dos medicamentos agonistas de GLP-1 com foco no Mounjaro como principal exemplo.
O que acontece com a experiência de comer durante Mounjaro?
1. Alimentos começam a ter um sabor diferente
Uma pessoa que passou grande parte da vida comendo carne moída normalmente, por exemplo, nas primeiras semanas de Mounjaro começa a reparar um sabor extremamente forte, mas por uma perspectiva desagradável ao invés da preferência que sempre teve.
Outras podem relatar redução da tolerância à pimenta, perda do gosto por alimentos gordurosos e maior preferência por azedos.
Em descrições mais específicas, relatos como sabor de plástico/isopor, morango excessivamente doce, molho de tomate intolerável e manteiga com gosto "de gordura pura" são vistas em acompanhamento nutricional com certa frequência.
"Não existe uma certa absoluta ou garantia de que sabores específicos passarão a ser percebidos como melhores ou piores. Essa alteração é totalmente individual e relativa." — Aline Angela, Nutricionista Comportamental
2. A percepção do doce, especialmente o industrializado, também pode ser alterada

Algumas pessoas em tratamento com Mounjaro descrevem chocolate, sobremesas, frutas e bebidas que antes consumiam normalmente como “doce demais” mesmo depois do tratamento. Outras, deixam de gostar completamente de alimentos doces pelos quais tinham preferência forte.
Há também relatos de sabores conhecidos adquirindo características inesperadas. Chocolate descrito como salgado/químico, aveia doce parecendo salgada ou café mais amargo.
3. Carne causa aversão em grande parte dos casos
“Eu sempre gostei de carne e, depois do Mounjaro, simplesmente não consigo mais comer.” — Paciente em acompanhamento nutricional (identidade preservada).
O sabor da carne pode ser percebido de forma muito mais forte. Há quem perceba um gosto que descrevem como estranho, rançoso, metálico ou semelhante ao de carne passada. Ou sentir o cheiro da carne com muito mais intensidade, principalmente durante o preparo.
A gordura parece ser particularmente desagradável em alguns casos. Um pedaço de frango mais gorduroso, a gordura aparente da carne ou preparações mais oleosas podem provocar repulsa antes mesmo de a pessoa terminar de mastigar.
Em outros contextos, o sabor parece praticamente igual, mas ocorre uma mudança na reação ao alimento. A pessoa coloca a carne na boca e sente vontade de parar de mastigar, dificuldade de engolir ou uma sensação de “não quero mais isso”.
Quando essa experiência se repete, pode surgir aversão antecipatória. Só de pensar na carne, sentir o cheiro ou vê-la sendo preparada, a pessoa já perde a vontade de comer.
4. Novos sabores se tornam interessantes

Também há mudança na direção contrária da aversão, ou seja, a capacidade de gostar de sabores que antes não eram prioridade na preferência do paladar.
Há relatos de maior preferência por vegetais, frutas, alimentos azedos e preparações mais frescas, pela sensação de estômago leve e cheiros menos intensos.
A complexidade de sabor de vários vegetais juntos demora mais para ser reconhecida em comparação a sabores mais simples. Esse tempo de impacto acompanha o tempo normal de uma refeição, fazendo com que a pessoa consiga se alimentar até o final do prato servido.
Uma pessoa que antes achava repolho apenas tolerável, pode passar a considerá-lo muito saboroso; enquanto outra pode preferir salada sem nem perceber inicialmente que estava sem molho, como de costume.
Por que o gosto da comida muda com Mounjaro?
O artigo "Altered eating experience during GLP-1 receptor agonist therapy", publicado na Frontiers in Nutrition, uma revista científica internacional de referência na área de Nutrição, investigou como os medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1 (como a semaglutida, tirzepatida e liraglutida, amplamente usados para tratamento da obesidade e diabetes) alteram a experiência alimentar e o paladar dos pacientes.
As principais descobertas e conclusões da pesquisa foram:
Não há uma mudança fisiológica direto no paladar
Muitos pacientes relatam que a comida "mudou de gosto" durante o tratamento. O estudo descobriu que não há evidências de uma alteração sensorial direta ou distúrbio gustativo primário, ou seja, os receptores da língua continuam identificando os sabores básico de forma normal.
Há mudanças no modelo sensorial Liking –Wanting do cérebro
A pesquisa propõe que as relatos dos pacientes devem ser interpretados através de três níveis integrados, e não como uma simples perda de paladar:
Sensorial (Sensory): A captação do sabor na boca (permaneceu essencialmente preservada na maioria dos dados em humanos).
Gostar (Liking): A avaliação hedônica ou o prazer imediato ao comer. O estudo indica uma revaloração do prazer do alimento ligada ao estado do organismo. As pessoas passam a achar alimentos altamente calóricos menos "saborosos" ou prazerosos.
Desejar (Wanting): A motivação e o desejo guiado por gatilhos (como ver ou cheirar comida). Os medicamentos de GLP-1 atuam fortemente neste aspecto, reduzindo a fissura (craving) e a motivação focada na recompensa alimentar.
Por que o Mounjaro muda a vontade de comer?
1. Acontece uma integração no tronco cerebral
Os sinalizadores de GLP-1 modificam como o cérebro processa os sinais viscerais e do trato gastrointestinal antes que eles cheguem às áreas superiores de recompensa.
2. Alteração nos circuitos de recompensa
O medicamento reduz a reatividade a gatilhos visuais e olfativos de alimentos ultraprocessados ou ricos em gordura/açúcar nas redes dopaminérgicas e de recompensa centrais.
Como resolver a falta de interesse pela comida como consequência do Mounjaro?
O tratamento com Mounjaro necessita de suporte nutricional especializado.
A simples orientação de orientar a pessoa a “comer mais proteína” pode ser pouco útil em casos de maior sensibilidade a sabores.
É preciso descobrir qual parte da experiência está causando a rejeição.
Se é o cheiro, preparações frias ou menos aromáticas podem ser mais toleráveis. Se é a gordura, cortes mais magros podem funcionar melhor.
Se é especificamente carne bovina, talvez frango, peixe, ovos, lácteos, tofu ou leguminosas continuam aceitáveis. Se alimentos sólidos estão difíceis em geral, outras apresentações podem ajudar a atingir a necessidade proteica com menor volume.
Uma pessoa que desenvolve aversão a várias fontes proteicas ao mesmo tempo, precisa avaliar a ingestão total, quais alimentos continuam toleráveis e como distribuir pequenas quantidades ao longo do dia, porque insistir repetidamente em um alimento que está provocando repulsa também pode fortalecer a associação desagradável com ele.
Resumo sobre o impacto do Mounjaro no apetite:
Cada pessoa responde ao tratamento de uma forma diferente: O impacto na experiência alimentar varia de pessoa para pessoa. Alguns pacientes apresentam uma redução acentuada no desejo, enquanto outros mantêm o apetite ou relatam reganho de peso/efeitos comportamentais atípicos.
Efeitos colaterais são comuns, mas podem ser tratados pela causa-raiz: Sintomas gastrointestinais comuns (como náusea e sensação de empachamento) frequentemente se confundem com a perda do prazer de comer (liking). O tratamento inclui descobrir a origem dos desconfortos a nível fisiológico e psicológico.
Depende da adesão ao tratamento: Compreender que o remédio muda o valor percebido do alimento e o desejo por recompensas alimentares ajuda a adequar estratégias nutricionais e melhora a adesão de cada paciente a longo prazo.
Aline Angela Carvalho de Araujo
Nutricionista Clínica Comportamental
CRN-8 18431
Atendimento online
alineangela.nut@gmail.com



Comentários