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Dieta cetogênica funciona para tratar depressão e ansiedade?

  • Foto do escritor: Aline Carvalho
    Aline Carvalho
  • 21 de jan.
  • 8 min de leitura
Dieta cetogênica é indicada para tratamento de doenças mentais como ansiedade e depressão?


A busca por tratamentos eficazes para transtornos mentais vai muito além dos consultórios médicos e farmácias.


Nos últimos anos, a ciência tem voltado seus olhos para uma questão fundamental: o que colocamos no prato pode influenciar nossa saúde mental?


Entre as diversas abordagens nutricionais estudadas, a dieta cetogênica ganhou destaque como possível aliada no tratamento da depressão e ansiedade.


Vamos entender neste artigo até que ponto ela deve ser considerada como um padrão recomendado de alimentação nesses casos.



O que é a dieta cetogênica?


Criada originalmente nos anos 1920 como tratamento não farmacológico para epilepsia refratária,a dieta cetogênica é caracterizada por ser rica em gorduras, pobre em carboidratos e moderada em proteínas.



O que a dieta cetogênica faz no seu corpo:


Quando mantemos uma restrição constante do consumo de carboidratos, nosso corpo entra em um estado chamado cetose.


Compostos conhecidos como corpos cetônicos passam a substituir a glicose como principal fonte de energia cerebral.


Essa mudança metabólica profunda afeta diversos processos no organismo, incluindo a função mitocondrial (as "usinas de energia" das células), o estresse oxidativo e a sinalização inflamatória.



Por que a dieta cetogênica poderia ajudar na saúde mental?


O interesse nas aplicações psiquiátricas da dieta cetogênica não surgiu do acaso.


Transtornos como depressão maior, transtorno bipolar e esquizofrenia compartilham algumas características metabólicas e neurobiológicas preocupantes.


  • Comprometimento mitocondrial: quando as mitocôndrias não funcionam direito, deixando as células com menos "combustível" para trabalhar.


  • Resistência à insulina: uma condição em que as células do corpo param de responder adequadamente à insulina, o hormônio que permite a entrada de glicose nas células. É como se a porta da célula ficasse emperrada e a glicose não conseguisse entrar para ser transformada em energia.


  • Hipometabolismo cerebral de glicose: o cérebro não utiliza adequadamente a glicose


  • Inflamação sistêmica: diferente daquela inflamação localizada que você sente quando torce o tornozelo ou tem uma espinha, a inflamação sistêmica acontece no corpo inteiro, de forma silenciosa e crônica. É um estado de alerta constante do sistema imunológico que pode danificar tecidos e órgãos ao longo do tempo.


Os corpos cetônicos produzidos durante a cetose podem modular esses processos problemáticos de várias formas, como:


  • Aumentando a eficiência energética das mitocôndrias

  • Reduzindo as espécies reativas de oxigênio (moléculas que causam danos celulares)

  • Regulando a neurotransmissão e até alterando a composição da microbiota intestinal



O que as evidências científicas revelam?


Uma revisão sistemática e meta-análise recente conduzida por Janssen-Aguilar e equipe (2026) examinou 50 estudos envolvendo mais de 41 mil participantes para avaliar o impacto da dieta cetogênica sobre sintomas depressivos e ansiosos.



Resultados para depressão


Dez ensaios clínicos randomizados (o padrão-ouro da pesquisa científica) compararam a dieta cetogênica com dietas controle quanto aos sintomas depressivos.


Os resultados mostraram uma associação significativa favorecendo a dieta cetogênica, indicando melhorias modestas nos sintomas depressivos.


Alguns detalhes interessantes emergiram da análise:


As associações mais fortes foram observadas em estudos que utilizaram monitoramento de cetonas (confirmando bioquimicamente que os participantes estavam realmente em cetose), em participantes não obesos, em intervenções com teor muito baixo de carboidratos e quando comparadas a dietas com baixo teor de carboidratos como controle.


Nos estudos quase-experimentais (pesquisas com metodologia menos rigorosa que os ensaios clínicos randomizados) nove estudos apresentaram associação consistente com redução dos sintomas depressivos.



Resultados para ansiedade


Já em casos de ansiedade, os estudos são ainda menos conclusivos.


Nove ensaios clínicos randomizados sobre ansiedade não demonstraram associação significativa com a dieta cetogênica.


Contudo, seis estudos quase-experimentais apresentaram resultados promissores, sugerindo que pode haver algum benefício, mas as evidências ainda são inconclusivas.


Isso significa que, na prática, não dá para afirmar que a dieta cetogênica funciona para ansiedade.


Enquanto alguns estudos menores e menos rigorosos apontam para possíveis benefícios, os estudos mais confiáveis não conseguiram comprovar essa relação.


Para quem sofre com ansiedade, outras estratégias de estilo de vida, como exercícios físicos e técnicas de relaxamento, têm evidências muito mais sólidas.



Contextualizando: dieta cetogênica versus outras abordagens nutricionais


É importante ressaltar que outras intervenções dietéticas possuem evidências mais robustas e consolidadas para o tratamento da depressão.



Dieta mediterrânea


Uma metanálise de 2025 (Bizzozero-Peroni e colaboradores) demonstrou que a dieta mediterrânea, rica em vegetais, frutas, grãos integrais, peixes e azeite de oliva, está associada ao alívio dos sintomas depressivos em adultos.


Esse padrão alimentar já é conhecido por seus benefícios cardiovasculares, mas agora ganha força também no campo da saúde mental.


O que torna a dieta mediterrânea especialmente interessante é que ela se baseia na abundância de alimentos frescos e minimamente processados, uma abordagem mais sustentável a longo prazo.



Alimentos integrais


Além disso, pesquisas indicam que padrões alimentares focados em alimentos integrais altamente nutritivos estão associados a um risco reduzido de depressão, enquanto dietas ricas em alimentos ultraprocessados aumentam esse risco, conforme apontado por Firth e colaboradores em 2020.


Quanto mais ultraprocessados no prato (salgadinhos, refrigerantes, comidas prontas repletas de aditivos), maior a probabilidade de desenvolver sintomas depressivos.


Por outro lado, priorizar alimentos que ainda se parecem com sua forma original parece proteger o cérebro.



Mudança de hábitos alimentares


Outra metanálise envolvendo ensaios clínicos randomizados com mais de 45 mil participantes demonstrou que a melhora na qualidade da dieta reduz sintomas de depressão e ansiedade, com efeitos mais pronunciados em mulheres.


Esse dado sobre mulheres merece atenção. Embora ainda não esteja totalmente claro o porquê dessa diferença, ela pode estar relacionada a fatores hormonais, diferenças na microbiota intestinal ou mesmo na forma como homens e mulheres processam nutrientes. O importante é que melhorar a alimentação traz benefícios reais para ambos os sexos.



Psiquiatria do estilo de vida: um olhar mais amplo


A nutrição representa apenas uma das vertentes da chamada psiquiatria (ou psicologia) do estilo de vida, abordagens com foco em evidências que complementam a psicoterapia e a medicação.



Essa perspectiva engloba sete domínios principais:


  1. Nutrição

  2. Atividade física

  3. Gerenciamento do estresse

  4. Saúde do sono

  5. Conexão social

  6. Conexão com a natureza

  7. Redução do uso de substâncias


Diretrizes clínicas recentes da Federação Mundial de Sociedades de Psiquiatria Biológica e da Comissão de Psiquiatria da revista The Lancet enfatizam que modificações no estilo de vida devem ser componentes fundamentais do tratamento da depressão, não complementos opcionais.



Por que considerar múltiplos domínios?


Muito longe de serem recomendações genéricas, esses 7 pilares são muito estudados e apresentam caminhos mais realistas na rotina de diferentes públicos que precisam de um cuidado integral desde a prevenção até o tratamento de transtornos mentais.


Caso você tenha muita dificuldade de ajustar e aplicar as orientações no dia a dia, procure ajuda profissional e qualificada.



Atividade física


A atividade física, por exemplo, apresenta efeitos de médio a grande porte na redução dos sintomas depressivos, comparáveis à psicoterapia e à farmacoterapia, sendo eficazes todas as modalidades de exercício.


Estudos demonstram que a atividade física reduz em 15% o risco de uso futuro de medicamentos psicotrópicos.



Sono


A saúde do sono também desempenha papel crucial.


Perturbações do sono são fatores de risco estabelecidos para depressão, e intervenções não farmacológicas para o sono, como a terapia cognitivo-comportamental para insônia, produzem grandes efeitos positivos na redução da gravidade dos sintomas depressivos.



Gerenciamento do estresse


Abordagens mente-corpo, como a terapia cognitiva baseada em mindfulness, mostram-se clinicamente eficazes e custo-efetivas para prevenção de recaídas.



Onde a nutrição atua na depressão e na ansiedade?


Mesmo que a dieta cetogênica não seja a maior contribuição da alimentação para o tratamento dessas doenças, para que os psicofármacos (remédios) consigam fazer seu trabalho como deveriam, o cérebro precisa de "matéria-prima".


Sem níveis adequados de certos nutrientes, os receptores cerebrais podem ter dificuldade em processar a medicação, tornando o suporte nutricional o "combustível" para a eficácia do tratamento psiquiátrico.



Considerações importantes e limitações


Embora os resultados preliminares sobre a dieta cetogênica sejam promissores para sintomas depressivos, os próprios autores da meta-análise destacam limitações importantes, como as diferenças nos grupos de comparação utilizados e períodos de acompanhamento geralmente curtos.


Os pesquisadores enfatizam a necessidade de ensaios clínicos robustos com protocolos padronizados e verificados, suporte estruturado aos participantes e desfechos pré-especificados para confirmar tanto a eficácia quanto a durabilidade dos resultados a longo prazo.



Orientações práticas


Para quem considera mudanças dietéticas como parte do tratamento para depressão, algumas orientações são fundamentais:


  1. Consulte profissionais qualificados: Mudanças dietéticas devem ser individualizadas, levando em consideração preferências pessoais, comorbidades (doenças e condições físicas de saúde), intolerâncias alimentares e situação socioeconômica.


  2. Considere abordagens com evidências mais robustas: A dieta mediterrânea possui evidências mais consolidadas para benefícios em saúde mental. Focar em alimentos integrais, minimamente processados e nutricionalmente densos é uma estratégia segura e eficaz. Como ela pode ser mais cara no Brasil, consulte um profissional qualificado para ajustar as recomendações nutricionais de acordo com a nossa cultura alimentar.


  3. Não abandone tratamentos estabelecidos: Intervenções de estilo de vida complementam, mas não substituem, a psicoterapia e a medicação quando estas são necessárias.




Aline Angela Carvalho de Araujo

Nutricionista Clínica Comportamental

CRN-8 18431

Curitiba/PR

Atendimento online e presencial

alineangela.nut@gmail.com



Referências

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