Nutrição baseada em evidências: o que significa, como funciona e quais são as vantagens
- Aline Carvalho

- 8 de jan.
- 10 min de leitura
Atualizado: 16 de jan.

Você já teve a impressão de que a nutrição muda toda semana?
Um dia o café é o herói, mas no outro, o vilão, e o debate entre manteiga e margarina parece infinito.
Se você busca a verdade sobre o que comer, comece a valorizar as informações baseadas em evidências científicas.
Neste artigo, vamos explorar o que significa "padrão-ouro" da ciência da nutrição, qual é o objetivo de cada tipo de pesquisa, e o que faz diferença no cuidado com a sua saúde.
Como identificar uma informação baseada em evidências na prática?
Se você encontrar uma informação nutricional e tem dúvida se ela é confiável para ser aplicada na sua vida, pergunte-se:
Vem de um consenso ou diretriz? (Ex: Sociedade Brasileira de Cardiologia). Geralmente, essas diretrizes só recomendam condutas baseadas em Nível 1 ou 2.
O estudo é em humanos? Estudos em células ou animais (ratos) estão na base da pirâmide e não servem como recomendação direta para pessoas.
É um "estudo de um estudo"? Se o artigo começa com "Uma revisão sistemática analisou 40 ensaios clínicos...", você está diante de uma pesquisa com maior confiabilidade.
"Em nutrição, às vezes é difícil fazer Nível 1 puro (ECR) para tudo. Não dá para "sortear" pessoas para comerem ultraprocessados durante 30 anos, por questões éticas. Por isso, as Revisões Sistemáticas de Estudos de Coorte também são muito valorizadas." — Aline Angela Carvalho de Araujo, Nutricionista Clínica Comportamental
Nutrição baseada em evidência (NBE) significa apenas se basear em artigos científicos de nível 1?
Muitas pessoas acham que ter uma prática clínica baseada em evidências científicas é só ler o PubMED e aplicar.
Se fosse assim, um robô seria o melhor nutricionista.
A verdadeira nutrição baseada em evidências é a intersecção de 3 pontos:

Melhor evidência disponível: O que a ciência diz (os tipos de estudo estão descritos mais a diante neste artigo).
Experiência do profissional: Sua habilidade em observar o que funciona na prática e identificar nuances que o estudo (análise da média) não viu.
Preferência e valores do paciente: Se a ciência diz que "fígado" é o melhor alimento do mundo, mas o paciente tem náuseas só de sentir o cheiro, a melhor evidência não serve para aquele indivíduo.
Considerar esses três pontos é necessário para garantir que o paciente tenha suporte profissional qualificado mesmo que a ciência ainda esteja investigando detalhes de características específicas sobre seu caso, como sintomas, doenças, fatores de influência, faixa etária, entre outras variáveis.
Qual é a base científica da Ciência da Nutrição?
A nutrição se baseia em um ecossistema de evidências que preenchem as lacunas onde os ensaios clínicos não podem chegar por questões éticas ou de tempo.
Para criar as guidelines e embasar a profissão, são considerados os seguintes pilares:
1. Estudos Metabólicos (Metabolic Ward Studies)
O que são: Estudos realizados em regime de internato, onde os pesquisadores controlam rigorosamente cada grama de alimento consumido e medem exatamente o gasto energético e excreções dos participantes.
Função: Servem para entender os mecanismos biológicos exatos (ex: como o corpo oxida gordura em diferentes dietas), fornecendo dados de altíssima precisão que estudos de campo não conseguem captar.
2. Randomização Mendeliana (Mendelian Randomization)
Este é um dos avanços mais importantes para as diretrizes modernas de 2025/2026.
O que é: Um método que usa variantes genéticas como "placebos naturais" para investigar se um fator (como níveis de Vitamina D no sangue) realmente causa uma doença ou se é apenas uma associação.
Função: Ajuda a confirmar se uma recomendação nutricional terá efeito real na prevenção de doenças crônicas, agindo como um "atalho" para estudos que levariam décadas para serem concluídos.
3. Revisões Sistemáticas de Estudos de Mecanismo (Pré-clínicos)
O que são: Pesquisas que sintetizam estudos in vitro (células) e in vivo (modelos animais, como ratos).
Função: Embora tenham confiabilidade muito baixa para prescrição direta, eles explicam o "porquê". Nenhuma diretriz recomenda algo sem entender o mecanismo biológico plausível por trás daquela recomendação.
4. Relatórios de Consenso de Especialistas
O que são: Quando as evidências de Nível 1 são escassas, comitês de especialistas de renome mundial se reúnem para avaliar a totalidade das evidências disponíveis (Níveis 3, 4 e 5).
Função: Eles preenchem o vácuo de dúvida, criando "posições oficiais" que garantem que todos os profissionais sigam uma conduta ética e segura até que estudos de maior nível sejam publicados.
Cuidado: nem tudo o que acontece "junto" é "causado" por aquilo
Para entender a ciência, você precisa dominar dois conceitos que parecem iguais, mas são opostos:
1. Correlação (coincidência ou associação): quando duas coisas acontecem ao mesmo tempo, mas uma não é a causa da outra.
Exemplo clássico: No verão, as vendas de sorvete aumentam e os ataques de tubarão também. Isso significa que comer sorvete atrai tubarões? Não. Significa apenas que o calor (variável oculta) faz com que mais pessoas comam sorvete e mais pessoas entrem no mar.
2. Causalidade (causa e efeito): quando uma coisa realmente provoca a outra.
Exemplo na Nutrição: Se você consome mais calorias do que gasta, você ganha peso. Aqui existe uma relação direta: o excesso de energia que não foi gasta causa o estoque de gordura.
Por que isso é importante para as suas escolhas alimentares?
Muitos estudos de Nível 3 (Coorte) mostram apenas correlação.
Eles podem observar que "pessoas que tomam suco verde são mais magras".
Mas será que é o suco verde que emagrece (causalidade)? Ou será que quem toma suco verde geralmente já tem uma vida saudável, dorme bem e se exercita (correlação)?
A ciência de Nível 1 e 2 serve justamente para separar o "sorvete e o tubarão" da "causa real".
Sem isso, profissionais podem acabar prescrevendo "suco verde" esperando um resultado que, na verdade, vem do conjunto de hábitos do paciente.
Entenda como funciona a hierarquia de evidências científicas

Nível 1 de evidência
Revisões sistemáticas e metanálises (ou "meta-análise")
Confiabilidade: Máxima
Função: Atuar como base sólida para a criação de diretrizes oficiais, chamadas "guidelines".
É o "estudo dos estudos". Pesquisadores reúnem todos os melhores Ensaios Clínicos sobre um tema, filtram os erros e somam os resultados estatisticamente.
Sua principal vantagem é eliminar as contradições. Se um estudo pequeno diz que o suplemento X funciona e outro diz que não, a metanálise resolve o conflito analisando o "todo".
Exemplo: Um pesquisador quer saber se a creatina realmente ajuda no ganho de massa. Ele não olha apenas um estudo sobre o assunto, mas analisa vários estudos de ensaios clínicos diferentes que envolveram muitos atletas para chegar a uma conclusão única.
Por que a confiabilidade é máxima? Porque ela anula as falhas de estudos pequenos isolados. Se 50 estudos rigorosos apontam para o mesmo lado, a chance de erro é mínima.
Ao se basear em evidências de nível 1, o profissional pode prescrever ou recomendar escolhas alimentares e suplementação com segurança máxima, pois o veredito não depende da sorte ou de um grupo isolado, mas de um consenso científico.
Nível 2 de evidência
Ensaios clínicos randomizados isolados
Confiabilidade: Alta
Função: Demonstrar causa e efeito de uma intervenção específica em condições controladas.
É um experimento onde se sorteia quem recebe o tratamento e quem recebe o "placebo" (substância sem efeito), isso significa que é a base para intervenções terapêuticas diretas porque busca provar causa e efeito.
Exemplo: Para saber se o Magnésio melhora o sono, sorteamos 100 pessoas: 50 tomam magnésio e 50 tomam uma pílula de farinha, sem que ninguém saiba o que está tomando.
Por que a confiabilidade é alta? O sorteio (randomização) e o uso de placebo garantem que o resultado venha do nutriente testado, e não da "crença" do paciente de que dará certo ou errado.
Este nível permite o profissional dizer: "Se você fizer X, o resultado Y provavelmente acontecerá".
Nível 3 de evidência
Estudos de coorte (observação de grupos por anos)
Confiabilidade: Moderada
Função: Identificar associações e riscos a longo prazo em populações reais.
Trata-se de observar um grupo de pessoas por muito tempo (anos ou décadas) para analisar os resultados das hipóteses (possibilidade de algo ser real) e descobrir associações de risco.
Se pesquisadores querem entender o impacto do consumo de fibras na proteção do coração ao longo de décadas, escolhe um estudo de coorte para essa análise, algo que um experimento curto não conseguiria mostrar.
Exemplo: Pesquisadores acompanham 10.000 pessoas por 20 anos. Eles notam que as pessoas que voluntariamente comem mais fibras têm menos casos de doenças cardíacas.
Por que a confiabilidade é moderada: Ele mostra que as coisas acontecem juntas (associação), mas não prova que uma causou a outra. Quem come fibra também pode se exercitar mais, o que confunde o resultado.
Fornece orientações preventivas de longo prazo. Pode não garantir cura imediata, mas torna possível afirmar: "pessoas que têm este hábito tendem a viver mais e melhor".
Nível 4 de evidência
Estudos de caso-controle
Confiabilidade: Baixa
Função: Investigar retroativamente as causas de desfechos ou doenças específicas.
O pesquisador começa o estudo depois que a doença ou o resultado já se manifestou, analisando o passado dos pacientes, através de prontuários ou entrevistas, para descobrir a que eles foram expostos.
Age basicamente como um "detetive médico". A intenção é levantar suspeitos (como o conservante X do exemplo) para que possam ser testados futuramente em estudos mais rigorosos.
Exemplo: Vamos supor que um pesquisador percebe que 10 pacientes novos têm a mesma inflamação intestinal rara. Ele pega esses 10 pacientes (Casos) e outros 10 saudáveis (Controle). Investiga retroativamente, ou seja, pergunta o que eles comeram nos últimos 5 anos. Se os 10 doentes comeram o mesmo conservante X e os saudáveis não, ele encontrou uma possível causa.
Por que a confiabilidade é baixa? Como depende da memória das pessoas (viés de memória), elas podem esquecer ou distorcer o que comeram anos atrás. Por isso, este estudo serve para gerar hipóteses, mas não para dar o veredito final.
Na nutrição, este tipo de estudo pode ser útil como um sinal de alerta. Não é suficiente para proibir um alimento baseado apenas neste tipo de resultado, mesmo assim é recomendado estar atento a possíveis riscos que a ciência ainda está começando a desvendar.
Em resumo, serve como precaução.
Nível 5 de evidência
Opinião de especialistas, relatos de caso, estudos in vitro, estudos em animais (geralmente ratos)
Confiabilidade: Muito baixa
Função: Servir como ponto de partida para novas hipóteses e mais estudos sobre o tema.
É puramente experimental. Não deve ser usado como regra clínica geral, apenas como uma porta de entrada que aguarda validação científica mais aprofundada: "Vi algo interessante acontecendo aqui, precisamos investigar se isso se repete em outras pessoas".
Exemplo: Um nutricionista percebe que um paciente específico teve uma melhora rara em uma alergia após consumir um chá exótico e publica esse relato.
Por que a confiabilidade é muito baixa? O que funciona para uma pessoa tem muitas variáveis, particularidades e relatividade. Não se pode aplicar isso como regra para toda a população sem estudos maiores.
As limitações práticas para a nutrição baseada em evidências

A ciência está em constante investigação e evolução
Não existe evidência de alta qualidade para tudo.
Várias situações clínicas específicas nunca foram estudadas em ensaios controlados randomizados.
Vamos esperar décadas para um estudo perfeito sobre aquela combinação exata de condições para dar orientações para pacientes? Impossível.
Na prática, muitas vezes o profissional precisa extrapolar de estudos relacionados ou usar raciocínio fisiopatológico.
Estudos analisam médias populacionais, não características individuais
As evidências científicas nos dão médias populacionais, mas cada pessoa tem suas particularidades que devem ser analisadas de forma integral.
Um estudo pode mostrar que determinada dieta funciona "em média", mas o paciente frente a frente com profissionais da saúde que o acompanham pode demonstrar características que o tornam diferente dessa média, como genética, epigenética, microbiota, contexto socioeconômico, preferências culturais, rotina de vida.
Depende da aplicabilidade na vida real
Muitos estudos são feitos em condições controladas que não refletem a vida real.
O protocolo nutricional que funcionou num ensaio clínico com acompanhamento intensivo, refeições fornecidas e participantes super motivados pode não ser viável para alguém que trabalha em três empregos e tem acesso limitado a determinados alimentos.
Motivos para você priorizar nutricionistas baseados em evidências científicas

A nutrição é uma profissão regulamentada, com formação universitária obrigatória, conselho de classe e código de ética, assim como medicina, enfermagem ou farmácia.
O que muita gente não percebe é que praticamente todo tratamento de saúde depende de nutrição para funcionar.
Um diabético pode tomar a melhor medicação do mundo, mas se a alimentação estiver errada, o controle glicêmico não vai acontecer.
Um paciente em quimioterapia precisa de suporte nutricional adequado para tolerar o tratamento e se recuperar.
Alguém em pós-operatório cicatriza melhor — ou pior — dependendo do estado nutricional.
A diferença entre um nutricionista e qualquer pessoa dando conselho de alimentação na internet é simples: formação científica e responsabilidade legal.
O profissional estuda anos de bioquímica, fisiologia, fisiopatologia, farmacologia. Ele sabe interpretar exames, entender interações entre alimentos e medicamentos, identificar riscos. E se errar, responde por isso.
Esse trabalho baseado em evidências significa que as recomendações não saem da opinião pessoal do profissional ou de uma tendência do momento. Elas vêm de pesquisas sérias, diretrizes atualizadas, conhecimento testado. É a diferença entre "eu acho que funciona" e "isso foi estudado, medido, comprovado ou há evidências sobre o potencial de efetividade".
No final das contas, nutrição bem feita muda resultado de tratamento, previne complicações, melhora qualidade de vida de verdade.
Aline Angela Carvalho de Araujo
Nutricionista Clínica Comportamental
CRN-8 18431
Curitiba/PR
Atendimento online e presencial
alineangela.nut@gmail.com
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