Todas as causas conhecidas da seletividade alimentar em adultos
- 4 de fev.
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Atualizado: 13 de abr.

Antes de apresentar as causas, é importante entender como a literatura científica deixa claro que a seletividade alimentar é etiologicamente heterogênea, isso significa que não tem uma causa única.
Ela é melhor compreendida como um sintoma com múltiplas origens possíveis, que frequentemente interagem entre si.
Quais condições têm maior associação com seletividade alimentar?
Autismo (TEA)
Há consenso de que a seletividade alimentar é muito frequente no espectro, com prevalências em torno de 70–80% em amostras clínicas. Em muitos casos, persiste ao longo da vida.
Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)
Crianças e adultos com TDAH apresentam mais seletividade, dificuldades alimentares e sintomas do que controles típicos, porém em menor grau que autistas.
Outras neurodivergências (p.ex. Tourette, ansiedade/TOC):
Níveis elevados de aversão e sensibilidade sensorial também aparecem, semelhantes entre diferentes transtornos do neurodesenvolvimento.
Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE ou ARFID)
A compreensão das causas está em desenvolvimento, mas o que a ciência entende hoje (2026) é que o transtorno tem causa multifatorial/biopsicossocial, combinando fatores biológicos, psicológicos e ambientais, e diferentes “subtipos” de apresentação (pouco interesse em comer, evitação sensorial, medo de consequências aversivas).
Traumas, repertório cultural, histórico familiar, entre outros motivos sem relação com transtornos
Pessoas que não possuem um transtorno também apresentam seletividade alimentar e também há acompanhamento especializado para estes casos.
Este artigo separa o que é evidência científica robusta, do que ainda está em fase de investigação.
Evidências científicas sobre seletividade alimentar em 2026
1. Sensibilidade sensorial aumentada (especialmente oral-tátil)
Esta é a causa mais bem documentada da seletividade alimentar.
O artigo de Zickgraf e colaboradores (2020), demonstra em quatro amostras distintas (crianças típicas, jovens adultos, crianças com transtornos de ansiedade/TOC e crianças com TEA) que a sensibilidade à textura oral é um preditor significativo e consistente da seletividade, independentemente da idade, do diagnóstico e do tipo de informante (pai ou o próprio indivíduo).
O mesmo padrão apareceu em grupos muito diferentes.
Este mecanismo parece envolver uma percepção exagerada das propriedades sensoriais do alimento, desde a textura, consistência, até a viscosidade, que gera reações de aversão ou nojo ao comer.
Crianças com sensibilidade oral aumentada, geralmente mais percebida entre os 2 e 6 anos de idade, têm risco marcadamente maior de desenvolver seletividade persistente na vida adulta.
2. Rigidez cognitiva e comportamental
O estudo de Zickgraf et al. (2020) foi o primeiro a demonstrar que a rigidez cognitiva e comportamental é um preditor independente da seletividade alimentar, explicando variância na seletividade mesmo depois de descartado o efeito da sensibilidade sensorial.
Isso é clinicamente importante porque tratar apenas o componente sensorial é insuficiente em muitos casos.
A rigidez se manifesta como:
Insistência em comer sempre os mesmos alimentos
Dificuldade de generalizar experiências positivas com um alimento para outros similares
Regras alimentares inflexíveis
Resistência intensa à mudança
Mais prevalente em condições como o Transtorno do Espectro Autista, mas também aparece em população geral e em transtornos de ansiedade ou Transtorno Obsessivo Compulsivo, onde o mecanismo provavelmente é diferente, mas com comportamentos parecidos.
3. Fatores genéticos e herdabilidade
Há evidências sendo publicadas que demonstram que a seletividade alimentar pode ter base genética.
Mesmo que ainda sejam necessários mais estudos, os testes genéticos e epigenéticos podem ser feitos para identificar possíveis genes de sensibilidade alimentar.
Tenha em mente que herdabilidade não mede o quanto algo é genético em termos absolutos. Ela mede o quanto das diferenças entre pessoas, em um contexto específico, podem ser atribuídas a diferenças genéticas.
Em um ambiente onde todos comem de forma muito parecida, a genética explicaria mais a variação.
Em um ambiente com muita diversidade alimentar, o ambiente teoricamente explicaria mais.
A pergunta central dos pesquisadores é basicamente:
Quando uma criança é muito seletiva com comida, a culpa é dos pais ou ela "já nasceu assim"?

O estudo Gemini (2024) acompanhou mais de 4.800 gêmeos britânicos desde os 16 meses até os 13 anos de idade, medindo em vários momentos ao longo da infância o quanto cada criança era "fussy" , ou seja, seletiva, "enjoada", difícil de alimentar.
Chegaram à conclusão de que a seletividade alimentar é fortemente influenciada pela genética ao longo de toda a infância, com herdabilidade chegando a 83% por volta dos 3 anos.
Isso quer dizer que, nessa faixa etária, cerca de 83% das diferenças entre crianças em relação à seletividade podem ser explicadas pela genética, não pela criação.
Porém, na primeiríssima infância (16 meses), o ambiente compartilhado (o que os pais fazem, o que colocam na mesa, como reagem quando a criança recusa alimentos) ainda tem uma influência significativa.
Esse efeito ambiental vai diminuindo com o tempo, e a influência genética vai crescendo. Em outras palavras, intervir cedo faz diferença; intervir tarde, bem menos.
Entenda mais detalhes sobre essa pesquisa no artigo "Paladar infantil é culpa dos pais ou a pessoa nasce assim?"
Dinkler e colaboradores (2023) fizeram algo parecido, mas com foco no TARE (Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo), quando a seletividade alimentar é tão intensa que causa problemas sérios de saúde, como desnutrição ou prejuízo social significativo.
Eles estimaram herdabilidade de cerca de 79%, sem efeito relevante do ambiente compartilhado. O resultado vai na mesma direção do estudo Gemini.
Lembre-se de que essa porcentagem é válida para aquela população, naquele contexto britânico, e deve ser interpretado com essa cautela.
4. Janelas críticas de desenvolvimento e experiências alimentares precoces
A evidência de que a introdução tardia de alimentos variados e com diferentes texturas na fase de desmame está associada à seletividade posterior é robusta em estudos longitudinais, incluindo o ALSPAC (estudo britânico com mais de 14.000 crianças).
O artigo de Taylor & Emmett (2019) é uma revisão de referência nessa área. Ela mostra que a introdução tardia de alimentos "grumosos" (lumpy foods) após os 9 meses aumenta significativamente o risco de seletividade alimentar posterior.
A biologia por trás disso é o período sensível de aprendizagem gustativa.
Há uma janela na qual o sistema nervoso central é mais flexível para aceitar novos sabores e texturas, e intervenções nessa janela têm maior probabilidade de sucesso.
Exposições intrauterinas e durante a amamentação também moldam preferências alimentares: sabores do ambiente alimentar materno se transferem para o líquido amniótico e o leite materno, condicionando preferências do bebê, e isso tem respaldo em estudos experimentais.
5. Estilos parentais de alimentação como fator de manutenção
Embora os pais não sejam a causa original da seletividade, o estilo alimentar parental modula fortemente se a seletividade persiste ou se resolve.
O estilo autoritário de alimentação (pressionar a comer) também, aumentando a resistência e fortalecendo a associação negativa ao longo da vida.
Estudos que analisam o impacto do comportamento social em alguma condição específica devem ser analisados com bastante senso crítico, já que limitações do processo científico podem induzir pontos de vista se interpretadas de forma enviesada.
6. Comorbidade com TEA, TDAH e condições do neurodesenvolvimento
É evidência muito bem estabelecida que a prevalência de seletividade alimentar em crianças com TEA é de 60–70%.
Os mecanismos incluem a combinação de hipersensibilidade sensorial (um traço central do TEA) e a rigidez comportamental ("insistence on sameness").
A comorbidade com TDAH também é documentada, mas precisa de mais estudos para ser compreendida a fundo.
Qual é o tratamento para seletividade alimentar?
Terapia Cognitivo‑Comportamental (TCC)
Intervenções comportamentais/ABA
Dessensibilização Sistemática
Encadeamento Alimentar
Terapia Ocupacional
Tratamento psiquiátrico (em casos específicos)
Reeducação alimentar
Aline Angela Carvalho de Araujo
Nutricionista Clínica Comportamental
CRN-8 18431
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