Paladar infantil em adultos é culpa dos pais ou da genética?
- 22 de fev.
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A seletividade alimentar é o padrão de recusar certos alimentos ou grupos de alimentos pela textura, cheiro, aparência ou sabor.
Nesses casos, há uma interação entre o que se nasce com, o que se viveu para que a condição aconteça e o que o sistema nervoso aprendeu a interpretar como ameaça.
De quem é a culpa?
Antes de começar a se aprofundar no assunto, é preciso entender que "culpa" não seria bem uma palavra adequada para descrever a causa de seletividade alimentar, já que ela é multifatorial, ou seja, pode ser iniciada e reforçada por diversos motivos.
É, por exemplo, muito mais comum em várias condições neurodivergentes do que em crianças/adultos neurotípicos, mas não aparece em toda forma de neurodivergência e nem em toda pessoa neurodivergente.
Pessoas neurotípicas também podem ter seletividade alimentar se passaram por episódios traumáticos, se são diagnosticados com Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo, ou por questões educacionais, culturais e ambientais.
Este artigo explica qual é a influência genética, ou se tem relação com a forma como os pais criam seus filhos, e o impacto desses fatores na seletividade alimentar da vida adulta.
Comportamentos típicos da criação que são comuns em pessoas com seletividade alimentar
Preocupados com a sobrevivência e saúde dos filhos, os adultos responsáveis pelo cuidado das crianças podem, propositalmente ou não, ter atitudes que armazenam traumas na memória
Todos esses comportamentos criam associação negativa entre alimento e sofrimento.
A criança passa a rejeitar a comida antes mesmo de cheirá-la, por vários motivos, entre eles a contração da musculatura no "modo defesa" que, ao se tornar padrão por repetição, interfere na própria experiência do ato de cheirar, logo, na experiência de comer.
Cria-se então um "comportamento automático" que representa segurança para o indivíduo.
Fonoaudiologia, psicologia, psiquiatria, terapia ocupacional e nutrição são algumas das áreas da saúde que formam a equipe especializada capaz de reeducar a memória fisiológica armazenada por anos se defendendo da possibilidade de comer alimentos rejeitados na primeira infância.

Alguns exemplos:
Forçar fisicamente a comer: empurrar o talher com comida na boca.
Pressão verbal e emocional na hora da refeição: frases como "mais uma colherinha" depois da insistente recusa por parte da criança; contar até três com tom de ameaça; chantagens ("se não comer não tem sobremesa").
Fazer da refeição um momento de discussão: quando o adulto fica visivelmente tenso, frustrado ou ansioso na hora do almoço, a criança capta esse estresse e a mesa é reconhecida um lugar de ameaça.
Rotular a criança: dizer na frente dela, repetidamente, "meu filho não come nada", "ela é chata para comer", "o Gustavo não come carne". Quando a criança ouve isso com frequência, incorpora como identidade e passa a defender esse papel que lhe foi dado.
Parar de oferecer o alimento recusado: se a criança perde o contato com o alimento, a familiaridade não é estimulada, e reintroduzir depois fica ainda mais difícil. A exposição repetida, mas sem pressão, é justamente o que reduz a repulsa.
Fazer refeições separadas para a criança seletiva: reforça o auto julgamento "sou diferente dos outros" e cria uma expectativa de que o mundo vai se adaptar ao repertório restrito dela. Além disso, priva a criança de ver outras pessoas comendo opções variadas. Este é um dos mecanismos naturais de expansão do repertório, justamente pela convivência e aprendizado em meios sociais.
Usar distração durante as refeições (tela, brinquedo, desenho): a criança come, mas não aprende a comer, pois não percebe texturas, sabores, sinais de fome e saciedade. O aprendizado sensorial que deveria acontecer à mesa simplesmente não ocorre. A longo prazo, isso pode agravar a seletividade porque a pessoa nunca desenvolveu a capacidade de processar conscientemente a experiência de comer.
Alimentação forçada em bebê por pressão de ganho de peso: introdução alimentar conduzida à força, sem orientação especializada, pode criar uma disfunção de processamento sensorial, principalmente porque as técnicas populares ou divulgadas pela internet tendem a incentivar a introdução de certos alimentos cedo demais, ou em volumes desproporcionais às necessidades de cada bebê ou criança.
Dieta familiar muito restrita, limitada ou monótona: se os cuidadores também têm um repertório limitado, não há modelos de diversidade alimentar. O mecanismo de aprendizagem por imitação simplesmente não tem material para trabalhar. Isso pode ocorrer por cultura, por condição financeira ou por negligência. Independentemente do motivo, considerar a influência deles na vida adulta faz parte do processo de lidar com a seletividade alimentar.
Comentários negativos sobre comida: adultos que fazem careta, falam "que nojo" ou demonstram aversão a certos alimentos na presença da criança passam essa aversão adiante. O mesmo vale para comentários sobre o corpo, sobre comer demais ou de menos, criando ansiedade em torno da alimentação que pode se instalar de formas imprevisíveis e a longo prazo.
Recompensar com comida ou usar comida como punição: "Se comer o brócolis ganha sobremesa" coloca os alimentos em hierarquias morais. Um é sofrimento, outro é prêmio. Isso complica a relação emocional com a comida de maneira ampla.
Uma vez consideradas essas possibilidades como parte da história de quem tem seletividade alimentar, o acompanhamento voltado para aumentar o repertório tende a ser mais assertivo.
O que a ciência diz sobre a genética da seletividade alimentar
Gemini é o maior e mais detalhado estudo de gêmeos longitudinal sobre seletividade alimentar, mas há outros estudos de tamanho considerável (Quebec, Generation R, GWAS multicohorte) explorando causas genéticas, sensoriais, temperamentais e ambientais.
Juntos, apontam para uma possível base genética, modulada por ambiente familiar e características biológicas da criança.
As metodologias dos estudos variam e falham por não considerar fatores biológicos de forma robusta, com atual inconsistência na literatura.
Além disso, mais trabalhos precisam ser publicados para que se possa afirmar causalidade com aspectos mais complexos.
A pergunta central dos pesquisadores é basicamente:
Quando uma pessoa é muito seletiva com comida, a culpa é dos pais ou ela "já nasceu assim"?
Para responder isso, comparam gêmeos idênticos com gêmeos fraternos.
Gêmeos idênticos compartilham praticamente 100% do DNA.
Gêmeos fraternos compartilham em média 50% do DNA, o mesmo que qualquer par de irmãos.
Mas os dois tipos de gêmeos, na maioria das vezes, crescem juntos na mesma família, comem na mesma mesa, têm os mesmos pais, vivem no mesmo bairro.
Então, se gêmeos idênticos são muito mais parecidos no comportamento alimentar do que gêmeos fraternos, mesmo vivendo no mesmo ambiente, isso significa que a genética está fazendo diferença. Porque o único fator que muda entre os dois grupos é a quantidade de DNA compartilhado.
As pesquisas precisam ser interpretadas com bastante senso crítico profissional
Isso significa que por mais que hajam publicações científicas neste tema, a realidade de cada família continua sendo o principal critério usado por profissionais para estabelecer um plano de acompanhamento e tratamento para questões relacionadas à seletividade alimentar.

A individualidade deve ser considerada no desenho da metodologia científica
As amostras em países específicos estão sujeitas à influência cultural e comportamental do coletivo, bem como o cenário de classe econômica.
Resultados podem ser diferentes em populações com hábitos alimentares e dinâmicas familiares muito distintas.
É aí que entra o trabalho de especialistas que atuam diretamente com o público e vivenciam as experiências culturais, contextos socio-econômicos, entre outras características da vida real que ainda não podem ser reproduzidas em pesquisas científicas.
Tem como descobrir se a seletividade alimentar é genética?
Testes genéticos podem ser feitos para compreender a hipersensibilidade alimentar, com o objetivo de reconhecer se o que é rejeitado supostamente por preferência é, na verdade, uma reação do corpo ao contato direto.
Exames como estes tendem a ser um investimento bem mais alto se comparado outros com cobertura por planos de saúde, como testes de alergias e intolerâncias.
A forma mais econômica, prática e que traz resultados diretos na rotina atual é fazer o acompanhamento nutricional e psicológico com profissionais que entendem, estudam e vivenciam na prática clínica o progresso de pacientes neurodivergentes ou neurotípicos.
A ciência ainda não sabe todos os genes específicos envolvidos
Os estudos de gêmeos provam que há influência genética, mas não identificam quais variantes genéticas são responsáveis.
Um estudo de associação genômica ampla para Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo está em andamento (ARFID-GEN), com 3.000 participantes nos Estados Unidos, mas os resultados ainda não foram publicados.
Então o que os especialistas em seletividade alimentar de adultos fazem?
Profissionais da saúde e terapeutas especializados recebem em consultório pacientes que relatam comparações com parentes que conviveram na mesma casa e tiveram uma criação parecida.
Parte desses relatos tende a ser "eu sou assim, não sei porque, já que meu irmão come de tudo".
E outros são mais específicos "minha mãe tinha que realmente me obrigar a comer usando força física, muitas vezes ela pediu pro meu irmão me segurar pra ela poder colocar qualquer alimento na minha boca".
A genética não determina 100% do "caminho" que uma pessoa viverá, pois o ambiente faz parte da sua formação de identidade quanto quanto da ativação ou inativação de genes.
Especialistas em seletividade alimentar adulta atuam em equipe multidisciplinar
Psicólogo: aplica TCC-AR com hierarquia de exposição gradual a alimentos temidos;
Nutricionista: pode usar a exposição gradual com ferramentas autorais baseadas na TCC-AR e usa a estratégia de food chaining para expandir o repertório a partir de alimentos seguros;
Terapeuta Ocupacional: avalia e trata disfunções de processamento sensorial;
Psiquiatra: maneja comorbidades como ansiedade e TOC quando presentes;
O foco do tratamento é o conforto prático com a comida e ampliação funcional da dieta, sempre com abordagem individualizada.
Aline Angela Carvalho de Araujo
Nutricionista Clínica Comportamental
Atendimento online para qualquer lugar do mundo
CRN-8 18431
alineangela.nut@gmail.com


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